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26

 

Maio

 

2026
4

 

Julho

 

2026
João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira - DAWN

© Vasco Stocker Vilhena 

João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira - DAWN
João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira - DAWN
João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira - DAWN
João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira - DAWN
João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira - DAWN
João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira - DAWN
João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira - DAWN

© Alípio Padilha

26 Maio 22h — 00h Inauguração

Performance com Afonso Peixoto, Ângelo Castro, Cire Ndiaye, Diogo Bento


29 Maio 17h30 — 19h Visita à exposição com os artistas + Performance




O convite que convoca as pessoas para DAWN, a nova exposição de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, apresenta uma imagem apropriada da icónica T-shirt Two Cowboys (1975), de Vivienne Westwood, originalmente concebida para a loja SEX, em King’s Road, Londres. Aqui, caricaturas dos artistas substituem os dois cowboys sem calças, reativando uma imagem provocatória que, à época, desafiou a heteronormatividade e a censura, sublinhando a sua urgência no presente.


DAWN apresenta um novo corpo de trabalho que dá continuidade à investigação da dupla em torno da agência social e política da vida noturna queer. O título convoca um momento liminar: a passagem entre a noite e o dia, evocando a memória de regressar a casa ao romper da manhã, depois de uma longa noite, quando os vestígios da noite permanecem ainda no hálito e no corpo. Esta condição de limiar — entre prazer e precariedade, anonimato e exposição, o privado e o público — atravessa toda a exposição.


A galeria transforma-se num percurso de bares escultóricos: objetos híbridos que operam simultaneamente como arquitetura, narrativa e palco. Estas obras não se limitam a representar bares; elas performatizam-nos. O desenho de cada estrutura propõe um vocabulário formal e simbólico distinto, ao mesmo tempo que examina coletivamente o bar enquanto espaço social capaz de produzir proximidade entre estranhos e criar comunidade. Ativadas por performers em funções de bartenders em momentos específicos da exposição, as esculturas oscilam entre instalação inerte e ambiente vivido.


Esta dinâmica prolonga-se no corpo através de um cocktail concebido especialmente para a exposição. Também chamado DAWN, resulta de uma mistura de champanhe, sumo de maracujá, baunilha e bagaço. À entrada da galeria, como prólogo da exposição, encontram-se doses individuais acondicionadas em frascos de aparência medicinal, empilhados em caixas de cartão. Tal como o próprio bar, o cocktail facilita encontros ao alterar a perceção e ao relaxar fronteiras. Deste modo, a exposição pode ser experienciada para lá do visível; continua metabolicamente, tornando-se parte de quem escolhe beber a poção.


Os bares foram sempre mais do que ambientes sociais; funcionaram também como espaços políticos, em particular para as comunidades queer. Oferecem não apenas lugares de encontro, mas também espaços onde se pode existir — onde se ensaiam modos de ser e formas de desejo que, de outro modo, não encontram lugar na vida pública. Funcionando simultaneamente como refúgio e palco, o bar sustenta uma tensão produtiva entre anonimato e exposição.


Historicamente, bares como o Stonewall Inn, em Nova Iorque, revelaram-se abrigos seguros onde comunidades marginalizadas puderam reunir-se, trocar experiências e organizar-se. Vale e Ferreira convocam esta linhagem, a par da experiência pessoal, enquadrando o bar como lugar onde prazer e dissenso permanecem inseparáveis.


Tomando de empréstimo a melodia melancólica e libertadora de “Smalltown Boy”, da banda dos anos 80 Bronski Beat — canção que há muito funciona como hino da comunidade gay —, o primeiro bar que encontramos, Cry, Boy, Cry (2026), é revestido por uma densa acumulação de fragmentos visuais e textuais informados pela semiótica da vida noturna queer. Superfícies grafitadas acolhem frases vindas da música pop, do discurso ativista e de confissões íntimas. O refrão “Run away, turn away...” recebe quem entra e funciona simultaneamente como instrução e condição, articulando um movimento contínuo entre espaços, identidades e estados de pertença. Assim, a própria exposição recusa uma narrativa linear, apresentando-se antes como uma constelação de momentos sobrepostos e em deslocação.


Se Cry, Boy, Cry coloca em primeiro plano a linguagem e o afeto através de uma estética visceral de casa de banho de discoteca, os bares seguintes são mais contidos no seu desenho, mas não menos extravagantes e estratificados no seu sentido. STUD (2026), construído em ferro, copos de vidro, pacotes de vinho e lâmpadas vermelhas, condensa os códigos visuais do desejo e do consumo num ambiente minimalista, mas carregado, quase ritualístico, em que a saturação da luz vermelha evoca simultaneamente intimidade e exposição. A obra sugere uma coreografia de exibição e sedução, na qual os objetos se tornam substitutos de corpos e gestos.


Em RISE (2026), estruturas de acrílico e ferro suportam garrafas de vidro em forma de cocktails Molotov, iluminadas por um sistema de LEDs programáveis. As cores mutáveis correspondem às diferentes bebidas servidas pelos performers, mas continuam a transformar-se mesmo na sua ausência. A referência ao cocktail Molotov sugere uma corrente subterrânea de potencial agitação nestes espaços politizados, misturando prazer e volatilidade.


SLAM (2026) propõe um registo mais cenográfico e imersivo, incorporando uma banheira, superfícies azulejadas, elementos mecanizados e torneiras fálicas em bronze que expelem água. A presença da água — em circulação, contida ou potencialmente transbordante — convoca uma sensação de equilíbrio precário. Aqui, o bar já não é apenas um lugar de encontro, mas também de rescaldo: um espaço onde a intensidade da noite se dissolve em repetição, manutenção e resíduo.


Através das dimensões modestas destes bares, a exposição reflete igualmente sobre a domesticação da cultura do bar. Em muitos contextos culturais do final do século XX, a estética do bar foi incorporada no espaço doméstico, onde o “bar de sala” se tornou lugar de performance amadora e de hospitalidade estilizada. Contudo, enquanto os espaços domésticos adotavam a linguagem visual do bar como sinal de sofisticação, muitas pessoas queer tiveram de recorrer aos bares públicos como substitutos da casa. Vale e Ferreira esbatem estas distinções, sugerindo que tanto o público como o privado são construídos através de guiões partilhados de comportamento, intenção e desejo.


Mantendo-se no estado de entremeio insinuado pelo título, DAWN emerge simultaneamente como proposição e refrão: um convite ao movimento, à transformação, à recusa da estabilidade, sem abdicar da procura de ligação. Vale e Ferreira exploram várias encarnações do bar e o seu papel enquanto agente de coesão. Entre resistência e prazer, memória e invenção, a exposição propõe o bar como uma estrutura duradoura de sentimento: uma forma de organizar a proximidade, encenar encontros e produzir momentos que importam, ainda que apenas pelo breve fulgor de um instante. Neste espaço, chegar é sempre temporário — mas nunca insignificante.




Hiuwai Chu

Maio 2026

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