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26

 

Março

 

2026
16

 

Maio

 

2026
Tatjana Doll - Come In

Tatjana Doll, "RIP_Antidawn A", 2018

Guache sobre tela
180 x 280 cm


Come In é a terceira exposição de Tatjana Doll na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art. As doze pinturas aqui apresentadas configuram o momento atual do seu projeto artístico.


Tal como sucede com o conjunto da obra de DOLL, cada uma das pinturas desta exposição é uma imagem secundária. No entanto não são secundárias em relação ao mundo corpóreo da "realidade", mas sim em relação a outras imagens já existentes — por um lado, representações de objetos reais (nesta exposição, automóveis); por outro, imagens de natureza sígnica, como o pictograma e o selo postal, ou imagens figurativas como a arte de museu e a banda desenhada. A pintora Marlene Dumas escreveu: "O mundo é plano", condensando, assim, a realidade da imagem com que artistas contemporâneos se confrontam. No mundo convertido em imagem, tudo está disponível, tudo é comparável a tudo. As fontes de DOLL estendem-se, por isso, do pessoal ao público, articulam alta e baixa cultura, alternam entre a esfera da necessidade banal e a do luxo, até que as próprias distinções se esbatem. Ao pintar a partir de imagens preexistentes, a "ordem das coisas" instituída perde a sua força vinculativa; as separações categóricas deixam de ser nítidas.


A pintura de DOLL não procura compreender as imagens dadas; recusa-lhes os indicadores de uma perspetiva subjetiva e prefere afastar-se delas. No início da sua carreira, DOLL pintava formatos que desafiavam os limites do espaço com tinta de esmalte comum. Poderia dar-se a impressão de que se tratava da transposição direta de um objeto para a tela numa escala 1:1 — como se a pintora funcionasse como uma máquina inconsciente, de elevado dispêndio energético, destinada à criação de reproduções coloridas. A utilização da tinta de esmalte reivindicava, assim, a rudeza de um revestimento técnico para construções pictóricas que não deixavam espaço para intimidade, imaginação, ou intuição. Aquilo que na imagem reprodutiva surgia como desvio, o extraordinário e o irregular, decorria de acontecimentos pictóricos aparentemente não controlados. Podia acontecer, por exemplo, que uma camada de esmalte aplicada de modo supostamente pouco profissional, demasiado espessa, formasse bolhas que rebentavam e escorriam, atravessando a representação quando a pintura, executada no chão, era colocada na vertical.


A partir de 2019, porém, DOLL deixou de abrir latas de esmalte e passou a trabalhar com tinta de artista convencional, isto é, óleo. Com poucas exceções, as obras apresentadas em Come In são pinturas a óleo (apenas pontualmente recorreua guache ou acrílico) — e encontram-se ligadas às obras anteriores, executadas com esmalte, por meio de uma rutura. A tinta a óleo não se presta a cobrir grandes superfícies à escala industrial, e perder o controlo sobre ela não é tão fácil como no caso do esmalte. Pelo contrário, o óleo exige uma manipulação cuidadosa e uma diferenciação subtil. Nos trabalhos mais recentes de DOLL, o desafio consiste, assim, em traduzir o acaso, o falhanço e os efeitos momentâneos em procedimento intencional, de modo a conferir evidência visual ao improvável e ao marginal, à desagregação do controlo e ao retorno do reprimido.


A exposição inclui Portrait of a Lady, a partir de uma obra do pintor flamengo Rogier van der Weyden (1399–1464), uma representação dos macacos acorrentados de Pieter Bruegel, o Velho (1525–1569), uma cena com as duas figuras principais da série de animação Pinky and the Brain (Pinky e o Cérebro) (1995–1998), duas pinturas com protagonistas do filme de animação chinês Nezha 2 (2025), bem como uma apropriação da Mona Lisa (1503–1506). Poder-se-ia dizer que estas figuras compõem oelenco de uma peça de teatro cuja escrita excederia as possibilidades de qualquer autor e para a qual apenas este título se impõe: "O que é o ser humano?" — a questão fundamental da filosofia formulada por Immanuel Kant. Como se resultasse de uma sobrecarga perante tal empreendimento sem nome, as imagens de origem, mais ou menos conhecidas, são pintadas como se uma perturbação interferisse na transferência reprodutiva de uma imagem para outra (à semelhança das distorções que outrora afetavam a imagem televisiva). As constelações figurativas de um drama definitivo funcionam como matriz de uma beleza marcada por indisciplina latente, transitoriedade, detalhe excessivo, monotonia cromática, a colisão violenta de elementos pictóricos de valor incompatível, indeterminabilidade pictórica — emerge uma pintura difícil de descrever, pois aproxima-se do colapso daquilo que se reconhece como organização pictórica, situa-se fora da oposição entre abstração e figuração, menos procurada do que consentida (como se esta pintura oferecesse ao seu sujeito central, a pintora, a possibilidade de abandonar o seu posto).


A pintora pinta-se para fora da imagem quando, por duas vezes, cria uma tela a partir de uma obra de Roy Lichtenstein, na qual o rosto do soldado que olha (para o espaço da galeria) surge ligado a um balão de fala que lhe coloca estas palavras na boca: “Consigo ver a sala inteira... e não está lá ninguém!”. Não ser visível concede à pintora a licença de ocupar a maior parte das duas telas com marcações fugazes, pintura de minutos, pinceladas arrastadas, soltas, móveis e animadoras, que, contudo, escapam aos critérios de “qualidade”. No caso da ambulância destruída (CAR_§20RDG), um acidente, uma irrupção na vida organizada, torna-se a ocasião para o brilho de cores primárias contaminadas que, em contraste com a paleta de Piet Mondrian, surgem em inflexões cromáticas como prata, vermelho-néon, vermelho-violeta, azul-violeta ou negro-avermelhado. Por fim, o pictograma PICT_X fornece uma imagem universal daquilo que é a pintura desregulada de DOLL: uma transgressão sancionada pela autoridade da superfície pictórica (fetiche do Modernismo) e assinalada pelo signo de um X. Porque as coisas são assim: a desregulação da pintura não é trivial, tem o seu preço. Daí a última palavra ser “Polizei” (Polícia).


Ulrich Loock

Março 2026



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