Discipline of Subjectivity
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Maio

 

2024
29

 

Junho

 

2024
Erwin Wurm - Discipline of Subjectivity

Sample my sausage*


O absurdo parece ser a chave escondida da ligação entre as coisas no mundo. Não propriamente uma chave de leitura ou de interpretação, mas de mecânica, na exacta medida em que o absurdo é performativo, auto-explicativo, opera em circuito fechado, isto é, cria o seu próprio mundo a partir da sua específica linguagem e das leis que determina, ou da ausência delas. Num certo sentido — enigmático e disjuntivo — aceitando habitar o mundo do absurdo (ou habitar o mundo jogando o jogo do absurdo) tudo se torna possível — todas as ligações, por improváveis e disruptivas que sejam, todas as decisões, por ilógicas ou irrealizáveis que pareçam.


O norte da Europa ofereceu-nos a sua parte de artistas que constroem um universo artístico dominado pelas leis, físicas e simbólicas, do absurdo. Uma mistura de gravidade e de insustentável leveza; perante as suas obras nunca sabemos muito bem como nos devemos comportar, como interpretar: serão para levar a sério ou para rir? Qual o plano em que se situam? Da crítica, do político ou, ao invés, do derisório, do anárquico ou do desconstrutivo? Ou os dois em simultâneo? Há uma boa expressão na língua francesa para caracterizar esse tipo de estratégia discursiva: pince sans rire. Significa — traduzir expressões idiomáticas é sempre aventuroso — uma forma particular de humor caracterizada pelo ar e o tom sério da pessoa que o pratica.


Erwin Wurm é um escultor que queria ser pintor. Para ser mais preciso, um artista que não faz só escultura mas que pensa como um escultor. A escultura é toda outra coisa que a pintura: ocupa e reclama o espaço que os corpos vivos dos humanos habitam. Parecendo, de resto, habitar o mundo desde o começo dos tempos, é, se assim podemos dizer, uma existência misteriosa, provocadora, simultaneamente solene e insolente.


Wurm tornou-se um artista internacionalmente famoso com a série One Minute Sculptures, que surgiu em 1996 e que continua a desenvolver até hoje. Mais do que uma série, é um modus operandi, uma forma de, através de instruções elementares, convocar a participação do espectador tornando-o uma figura híbrida, trazendo-o para o espaço da escultura. Entre a performance e a cena teatral, a pose fotográfica e a fixação do gesto (reminiscência da pintura), Wurm opera no interior da linguagem complexa e ontologicamente ambígua, da escultura.


Que força é esta que as esculturas têm? Massa, volume, movimento, tempo, presença, aparência, corpo, pele, materialidade, aura, mimetismo, antropomorfismo, geometria, abstracção, e etc. e etc. — tantas outras qualidades e atributos daquilo a que se convencionou chamar escultura.


Um acontecimento de origem (sobre)natural, a destruidora erupção do vulcão Vesúvio em 79 d.C., esclareceu-nos acerca da ontologia da escultura, do mistério do seu fascínio. O fascínio da escultura advém directamente do principal, obsessivo e atávico interesse dos humanos: a própria espécie humana. Os corpos calcinados pela lava, o fogo e o sopro das altas temperaturas no ar, em posturas que revelam e reificam gestos (de horror, de amor, de estupor) são como esculturas espontâneas em que se realiza o desígnio da própria escultura: almejar reconstituir, traduzir, dar corpo ao corpo humano, ser o seu duplo inanimado.


Pompeia é o processo e a propriedade da escultura fundidas num só acontecimento. A densidade e a espessura do tempo tornadas para sempre presença, mórbida presença. É a partir deste enquadramento que os artistas que trabalham com a escultura, em todas as épocas, operam. Como variações sobre o mesmo tema.


Consideremos o extraordinário grupo de esculturas a que Wurm chama Substitutes e que apresenta simultaneamente em Lisboa (Cristina Guerra), em Berlim (KÖNIG) e em Londres (Thaddaeus Ropac). A qualidade fantasmagórica e espectral, nostálgica e irónica, destas peças, que emergem e existem num mundo Pós-Antropoceno, como refere Wurm, não somente as vinculam a um imaginário “romântico” como o seu contrário, são quase dadaístas, desapossadas de corpo e desinvestidas de sentido, qualidades negativas para uma época de incerteza radical e de passividade abissal — a perfeita contradição nos termos. Wurm faz a escultura emergir e operar no espaço e na duração do quotidiano, reduzindo a sua carga histórica para melhor exaltar a sua dimensão meta-linguística. São peças de uma só cor, em alumínio ou bronze. O artista faz notar que como as esculturas gregas são vazias no interior — roupa sem corpo, pele sem carne.


A cooptação de símbolos banais e correntes, diluídos no caldo da vida quotidiana e orgulhosamente erigidos em símbolos identitários, é outra das estratégias mais potentes do trabalho de Wurm. A salsicha (wurst), protagonista das séries Abstract Sculptures e Attacks, ergue-se em símbolo maior da obra do artista austríaco. Como o pepino (conservado em pickle), a salsicha, com as suas propriedades plásticas evidentes, adapta-se a toda a sorte de usos e declinações da forma. Quais corpos sem cabeça — perfeita metáfora do cidadão contemporâneo — são a melhor definição (bizarra e familiar, grotesca e risível) de uma forma a um tempo figurativa e abstracta, funcionando como síntese do amplo vocabulário formal e informe de Wurm.


Diria que se há traço definidor do trabalho de Wurm é o de ser radicalmente experimental. Essa característica, que é ao mesmo tempo uma atitude perante o mundo, constitui a obra como um complexo sistema de genealogias e de multiplicidades em que as palavras têm um papel crucial. O título das peças vem associado a uma tipologia mais ampla e não é raro que remeta para peças mais antigas.


Flat Sculptures indexa ironicamente um conjunto de pinturas que Wurm começou em 2020. Como na escultura, o artista continua trabalhar, agora no espaço bidimensional, com questões de volume e de forma, mas a matéria própria das pinturas, para lá do acrílico, do óleo e dos pigmentos — que explodem em contrastes brilhantes — são as palavras que constituem os títulos das peças. As letras transformam-se em formas quase abstractas, no limite da legibilidade, ao mesmo tempo que as palavras que as compõem abrem espaços para a imaginação do espectador.


Assuntos de escultura, diria Wurm. Dito de outra maneira, assuntos de homens e de mulheres, na relação com as existências, as forças e as fragilidades de um mundo onde vivemos e de que nos esquecemos algures no caminho.



Nuno Faria

Maio 2024




*Sample My Sausage é o título de uma canção da banda britânica Alien Sex Fiend que faz parte do álbum Another Planet, editado em 1988.

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