
Inauguração dia 9 de Julho às 21h30
Joana Lourenço | Luís Rocha | Lyz Parayzo | Xiao Zhiyu
O remix fodeu o original
como a droga o tempo,
o teu tempo.
Assim escreveu Perla Zuñiga*.
A exposição Arqueologia Remix fala-nos de ritmo: o compasso de contagem da vida. Quando contamos, contamos o tempo e as suas unidades, mas também contamos as histórias. A grande beleza das palavras polissémicas, i.e., que têm vários significados, é que às vezes se encontram na mesma frase e por momentos são cúmplices de um pequeno mistério que impõe uns solavancos na leitura, para euforia da musicalidade do texto. É como quando na mesma casa há três pessoas chamadas João e alguém chama para jantar.
A arqueologia e o remix representam aqui forças opostas em relação ao tempo: se a primeira preserva o original, o segundo desconstrói-o. É como se fabricassem respostas diferentes para como habitar o futuro: ora a partir de um olhar conservador, que mantém as estruturas, ora a partir de um movimento progressista, que as altera radicalmente.
Desengane-se quem pensar que estamos de novo perante uma polarização binária, porque o mais curioso sobre os dois conceitos é que, apesar de imaginarem o futuro, são profundamente reformistas na sua prática, como mote e modo de sobrevivência. Nem a arqueologia representa novamente o passado, nem o remix parte de um momento iniciático: ambos trabalham sobre materiais herdados, reorganizando-os em vez de os substituir por completo. É nesse sentido que partilham uma condição de reforma, capaz de gerar novos ritmos.
A triangulação entre os três padrões, conservador, reformista e progressista, enquanto propostas para a vida individual e coletiva, organiza-se de maneira não linear entre o desejo de manter hábitos, a criação de outros novos e a produção de narrativas variáveis sem configuração estável.
A nostalgia do que somos, ou ainda há pouco éramos, encontra no anúncio de outras, novas, formas queridas, um augúrio da sua expressão, enquanto acompanha a constante despedida do mundo tal como o conhecemos.
São os artefactos, investidos do estatuto de testemunhas do passado, que nos mostram como se viaja, como se dorme, como se arquivam as imagens ou como se contempla a paisagem, na certeza de que tudo o que informa um costume pertence também a uma coreografia íntima da construção das identidades.
Mas será mesmo possível trabalhar o passado em relação ao presente e ao futuro com a leveza e a certeza de que a sua matéria, que tão bem conhecemos porque nos fundou, ainda que alterada, nos consegue acompanhar? Numa cultura que produz autoimagens continuamente, e onde a experiência vivida e a sua representação se confundem cada vez mais, a questão da origem regressa com outros desígnios. Pegando na velha pergunta do ovo e da galinha, abre-se espaço para outra: quem veio primeiro, nós ou a nossa cultura, nós ou as nossas memórias?
Diariamente procedemos a exercícios coletivos muito plásticos de trabalho da memória como contar a alguém o que se passou ontem à noite, fazer uma publicação numa rede social, explicar a um amigo por que é que se dormiu mal. E vamos editando essa informação de modo a perceber a paisagem que chega e que chega sempre. Talvez a questão não admita uma resolução definitiva. Produzimos cultura enquanto somos produzidos por ela; herdamos memórias que reorganizamos continuamente através da experiência. Na esteira da arqueologia e do remix, também nós habitamos uma zona intermédia entre conservação e transformação.
A paisagem, tal qual os artefactos, opera também como arquivo. Ambos conservam marcas de temporalidades distintas e tornam visíveis as mudanças. Uma idiossincrasia acerca da paisagem é que ela aparece. Enquanto manifestação súbita do tempo, surge como uma imagem sagrada, e a sua leitura revela-nos tanto o passado como o futuro.
A atenção à paisagem natural, como uma fotografia de uma serra, por exemplo, conta-nos sobre transformações ambientais, económicas e sociais e, em certos casos, fluxos migratórios. Penso nas montanhas do norte da Península Ibérica que, organizadas num coro ágil e pintadas ora de verde, ora de branco, ora de castanho, consoante a época do ano (outra forma de perceber o tempo), deixam a descoberto as marcas da extração de pedra; ou nas misteriosas Linhas de Nazca, no Peru, um conjunto de grandes geoglifos traçados no solo do deserto entre 500 a.C. e 500 d.C. por pessoas dessa cultura.
Por sua vez, o sentido em que caminhamos diz-nos para onde vamos, e essa ideia paisagística que vemos será o lugar onde estaremos no futuro, no final da caminhada. Tendo em conta a sua íntima relação com o tempo, podemos tomar a paisagem como o mapa referencial definitivo da coexistência das diferentes propostas temporais que nos trazem os conceitos de arqueologia e remix.
O encontro das obras de Xiao Zhiyu, Luís Rocha, Lyz Parayzo e Joana Lourenço não ilustra simplesmente estas questões, coloca-as em funcionamento. A partir de figuras e materiais do presente, as obras em conversa ensaiam uma situação arqueológica, ironizando a sobreposição de temporalidades característica da vida contemporânea. Entre documento e invenção, arquivo e recombinação, apresentam o presente como um território onde múltiplas cronologias coexistem e provocam continuamente o futuro nostálgico.
A nostalgia atua aqui como um xaile dourado, fino e transparente, permitindo que os ritmos não lineares, em alternância, reconheçam um momento comum e subtil, que ampara estados de vertigem ou incerteza, resultantes de vazios no padrão traçado. O ritmo é belo e é nosso.
Filipa da Rocha Nunes
Junho de 2026
*Perla Zúñiga (1996–2024, Madrid) foi uma artista, poeta e DJ cuja obra cruzou poesia, performance e música eletrónica. Faleceu aos 27 anos, vítima de um cancro raro que marcou profundamente a sua obra. A citação é parte de um poema publicado no livro Me muero, te quiero, de sua autoria, editado em 2025 pela editora Blatt & Ríos.